terça-feira, 1 de maio de 2012

O TEATRO MÁGICO


                                                                                 para Greice

Música e poesia
deram-se as mãos,
num gesto cúmplice de afeto.
E, de autenticidade,
pintaram-se os rostos,
para que, somente pelos olhos e pela boca,
fulgurasse a magia de um teatro
impregnado de sons e palavras,
ideias e ideais,
partilhando um pão carinhosamente
levedado por acordes e versos;
flagrante fascínio
de uma plateia cativa de sonhos.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto: informe a autoria


O Teatro Mágico http://oteatromagico.mus.br/



quinta-feira, 12 de abril de 2012

UMA VARA DE MEDIR O SOL




Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.


Graça Pires
Uma Vara de Medir o Sol




É com grande prazer que recomendo o livro UMA VARA DE MEDIR O SOL, pela Editora Itermeios, da consagrada poeta portuguesa Graça Pires. Como é seu primeiro lançamento no Brasil, é uma oportunidade única de conhecer um pouco do trabalho dessa grande poeta. E tenho certeza de que, quem fizer a aquisição, terá em suas mãos não somente um livro de poesia, mas um rosário inteiro de emoções desfiadas sob uma luz intensa de metáforas capazes de nos deixar perplexos, tamanha a intimidade que a autora com elas mantém.
Ao clicar no título dessa postagem, você será redirecionado ao site da editora para a adquisição do livro.
Boa leitura!





UMA VARA DE MEDIR O SOL de Graça Pires


O imaginário poético de” Uma vara de medir o sol” elabora-se a partir de silêncios e memórias.
Aqui se procura, no pleno dizer dos sentidos, a geografia das coisas amadas e sofridas.
Aqui se revela a inquietude de quem vê com perplexidade e assombro o nosso mundo, quando reparamos nele com o olhar de uma descoberta mais lúcida.
Aqui se teme que a persistente proximidade do abismo aumente o nosso desamparo e os nossos medos, habitantes que somos do mesmo espaço onde que se acoitam pressentimentos e angústias primordiais.
Aqui se tenta ficar mais perto de um território filtrado pela luz de pretéritos crepúsculos e de límpidas manhãs futuras.



Editora Intermeios

segunda-feira, 5 de março de 2012

MÍTICO





Percorro as palavras
num ritual antigo,
ancestral das minhas emoções,
para nomear o teu lendário regresso.
Porque são as palavras
o invólucro perfeito do desejo,
a redoma mantenedora
de todos os significados.
E neste universo de infinitas
etimologias, preservo intacta
a semântica da tua imagem,
já mítica,
no esboço da minha memória.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto Ricardo Almeida

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CUMPLICIDADE








Quando meus olhos
se amalgamam aos teus,
num gesto uníssono de cumplicidade,
teu rosto desmorona, vertiginosamente,
na emoção de um sorriso,
tornando audível
o âmago de um silêncio
somente habitado na euforia do desejo,
comum à reciprocidade inata dos amantes.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto Angela Silva

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

LABIRINTOS






Perpetuo, nos olhos,
a solidão de todos os labirintos.
Porque a solidão por si só
não basta,
é preciso também estar condenada
a um caminho sem volta,
isento de possíveis regressos;
um caminho circunscrito
pela eternidade de um agora que
jamais será pretérito,
jamais será memória.



Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Mychelle de Andrade Pavão

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NATAL







Leio o teu nome
na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
no milagre dobrado
de ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
meninos pobres em currais de gado,
crianças que são ânsias alargadas
de horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
a divindade é o menos.





Miguel Torga
Foto: autoria desconhecida

terça-feira, 15 de novembro de 2011

SOMBRA






A luz se apagou em meus olhos.
O que neles reside
é uma opaca lembrança
entornada de mágoas.
Já não há nascente,
o que me resta é o crepúsculo
de uma desavisada sombra de saudade.





Elizabeth F. de Oliveira

terça-feira, 27 de setembro de 2011

CLARIVIDÊNCIA





O tempo enevoou meus olhos
com um halo de encantatórias promessas.
Embriagada pela miragem do teu regresso,
fui abruptamente surpreendida
pela ofuscante nitidez da verdade,
intuição involuntária
da clarividência dos meus enganos.





Elizabeth F de Oliveira
Foto 'Clarividência' de Ana Martins

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

FIRMAMENTO





A inerme ingenuidade das manhãs
esconde o rito latente dos cotidianos;
ameniza,
com um tênue traço de candura,
a pressa frenética com que se
deflagra a vida.
Anônimos, permaneceremos,
com uma velada promessa
nos olhos de um azul eterno,
sob um céu nítido de esperanças.





Elizabeth F de Oliveira
Foto sem autoria

terça-feira, 31 de maio de 2011

EXTRADIÇÃO





Entre mim e ti
há um caminho
pontilhado de reticências,
há um desassossego
nos parênteses da espera.
Não sei se pontuo de interrogação
o muro de equívocos
que nos separa
ou se aguardo pacientemente,
nas entrelinhas da saudade,
a etimologia do teu regresso;
pois é aqui nesse exílio,
que, por ti, sempre realizo
a extradição poética
das minhas palavras.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto Daniel Pedrogam

terça-feira, 17 de maio de 2011

RETOQUE


Retoquei a linha do horizonte
no afã de me livrar
do crepúsculo da solidão,
penumbra prematura da minha sede.
Mas meus olhos divagaram
perplexos de saudade,
confinando-se voluntariamente
no último instante do poente da memória,
à espera de um milagre
na rutilância secreta dos teus olhos.




Elizabeth F de Oliveira
Foto Álvaro Manuel Mendes Cordeiro

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SEM NOME





Sobrevivi ao naufrágio
de uma saudade avassaladora
de sonhos imperfeitos.
Vagas sem rumo de mim,
ondas revoltas
sobre o meu barco sem mar,
e uma bússola de incertezas
orientando o norte do meu peito.
Sobrevivi, resgatada
por uma das ilhas desertas
da minha solidão sem nome.









Elizabeth F de Oliveira
Foto Teutoaero

segunda-feira, 28 de março de 2011

ARTE





Tu inauguraste
a galeria do meu sentimento
com a tela mais impressionista
da emoção.
Emoldurada de sonhos,
é a obra-prima dos meus anseios,
incondicionalmente presa
à parede surreal da minha
excessiva espera.






Elizabeth F de Oliveira
Quadro de Monet

terça-feira, 15 de março de 2011

GRATIA




para Graça Pires




Tu és gratia plena
em minha poesia.
Fez-se luz
no horizonte das minhas palavras,
na semântica
da oração dos meus versos.
Bendito é o fruto
do teu sentimento,
que verte de águas
os caminhos da minha sede.
Amen.








Elizabeth F de Oliveira
Foto Eduardo Breviglieri

quarta-feira, 2 de março de 2011

MEIA-LUZ







Sempre vivi
Intercalada de saudades,
mergulhada, semanticamente,
na latência dos sonhos.
É como se a aurora
nunca raiasse em meus dias,
coexistindo em mim
um crepúsculo permanente de vida.
A timidez da luz
sempre foi constante
no céu do meu domínio,
instaurando perenemente
uma meia-claridade de sonhos
e velados anseios.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Bluu

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

SILÊNCIOS





À sombra de todas as vozes,
escondem-se silêncios opacos, difusos,
que se mesclam ao clamor dos sons.
É preciso desvendar-lhes o contorno impreciso
para pressenti-los nas entrelinhas sonoras
dos seus oscilantes movimentos.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Manuel Madeira

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

UM INSTANTE





Quando o cansaço cerra
os meus olhos com a lâmina
pesada do cotidiano,
habito, instantaneamente,
o universo paralelo do meu peito.
Em um lampejo eterno de segundo,
reviso lágrimas e sorrisos;
dias ensolarados de êxtase
e tempestades de tristezas.
Revejo sonhos, propositalmente
esquecidos na frustração do tempo.
Reacendo lembranças boas,
Mantidas, bem guardadas,
para casos de sobrevivência.
Reanimo os amores que carrego
na asfixia do meu peito.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Marta Ferreira

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

MUDANÇAS








Não é possível reter a voz das intempéries
quando ela chega ao vértice da vigência da vida.
Ela sibila bem trajada de metáforas,
adornada de analogias, para disfarçar
os olhos desavisados.
Mas com o som que ecoa implorante de mudanças,
pode-se pressentir o chamamento retumbante da vida.
Mudanças assinalam a próxima tempestade,
reiterando a urgência dos sonhos.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto Street Dog

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

VOO






O brilho dos teus olhos
prescindem palavras;
são eles mesmos a grafia
mais perpétua do sentimento,
sobressaltando inadvertidamente
os meus, num voo invisível
e arrebatador de desejos consentidos.






Elizabeth F de Oliveira
Foto: Fátima Joaquim

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

REFÉM





A solidão dos dias adentrou
a minha casa,
fez-me refém da poesia,
trancando-me em algum porão
de mim mesma,
esquecida,
no escuro inevitável do tempo.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Mark Freedom

segunda-feira, 5 de julho de 2010

HERÓIS


Inspirei-me na Odisséia de Homero
Para versejar meus sonhos;
Invoquei a força de Hércules para realizá-los.
Mas em algum momento,
A saudade abateu-se sobre mim,
Anulando a força dos meus heróis e
Quebrando todo o encanto que havia.
Tornei-me prisioneira,
Cativa de mim mesma,
Perdida, no labirinto dessa saudade.








Elizabeth F de Oliveira
Foto Julio Cezar Ramos Lobo

domingo, 4 de abril de 2010

ESCOLHA




Desesperei os olhos
quando me vi margeada
por uma sequência de abismos.
O recuo é póstumo,
o passo à frente, a absolvição.
Não é sempre que temos
a escolha do sepulcro.





Elizabeth F de Oliveira
Foto: Rui Serrano de Alegria

quinta-feira, 18 de março de 2010

PRESSA


Sublinho o horizonte
com as pegadas da minha retina;
contorno-lhe de metáforas,
vislumbrando um nascente
significativo de urgências.
O tempo não desliza languidamente
sobre os meus dias,
mas urge, numa pressa
devoradora de vida.
É preciso retomar
a trilha do amanhã,
que se insinua
em algum lugar do entardecer.







Elizabeth F de Oliveira
Foto Fernando Varela

terça-feira, 2 de março de 2010

INSÔNIA


Castelos de insônia
sombreavam a orla
da minha noite
à frente de um mar de silêncios

Onde meu sono
não anoitecia
nem amanhecia...

Longe, na pátria
dos desejos,
sereias faziam juras,
lançavam-me encantamentos...
mas meu coração
não cedia!

Passei a noite
de olhar a noite
enquanto lá
no mirante das estrelas


O tempo desfraldava -
lentamente -
um outro dia.


Jaime E. Cannes
Em Tarô para a Autotransformação e a Cura
Imagem Osho Zen Tarô

domingo, 20 de setembro de 2009

NO WHERE





Retorno ao ponto
de origem;
onde nunca estive,
de onde nunca saí.
Mas retorno,
sem sequer ter voltado.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Gonçalo Cavaleiro

domingo, 9 de agosto de 2009

E chega um dia...



E chega um dia em que reconhecemos
finalmente
a injustiça das palavras -
exactamente as mesmas
para quem vai e para quem fica


um dia
em que não há mais passado para contar
nem mais futuro para viver


apenas uma velha cantiga a embalar
uma casa desaparecida
e este limbo ocasional
onde o corpo
espera que anoiteça





Alice Vieira
Em 'O Que Dói às Aves'
Foto Carla Salgueiro

domingo, 19 de abril de 2009

REVOADA






Mergulhei na revoada
multicolorida das borboletas,
na ânsia de confundir-me com elas.
Eram tantas asas sussurrando
em meu ouvido, que recordei
a iminência da liberdade
já traçada em meu peito.
Eram tantas asas,
que pude sentir
a leveza do pensamento,
há muito já alado,
aguardando somente o sopro
transparente de uma tal liberdade.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Alberto Marques

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Busca


Quantos rosários de oração
hei de desfiar no silêncio das mãos?
Prece a prece, os dedos urgem
a proclamação de uma paz
jamais vista, jamais alcançada
na hesitação da vivência.
Os olhos testemunham tristes
a ansiedade que adormece
na busca dessa paz apaziguadora
das insistentes angústias.










Elizabeth F de Oliveira
Foto Cesar Guizzo

quinta-feira, 19 de março de 2009

Estações



Foi o outono, eu sei,
que esculpiu em meu rosto
as delicadezas do cansaço.
Foi ele que sulcou a minha pele
para arar de lucidez
a minha última estação.
O verão, tão próspero de vida,
não retornará à minha existência.
Mas poderei me aquecer
com a lenha de sentimentos,
que ainda arde em meu peito.
É com ela que construo fogueiras
e aqueço as lembranças
das estações passadas.




Elizabeth F de Oliveira
Foto Vanessa Schwark

quarta-feira, 4 de março de 2009

NOVO CAMINHO






Entreolho a noite
como quem desconfia
da possibilidade da manhã.
Recolho os passos de solidão
e recuo no trajeto das hesitações.
Redescubro um caminho novo
tatuado de nem tão utópicas realizações.
A vida é mapeada de escolhas.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Bruno Raposo