Quando teus olhos
ficam marejados,
vejo luzes submersas.
E constato o quanto
a natureza é sábia:
estrelas podem cair
no oceano,
sem sequer terem
morado no céu.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida
Nem pareces o mesmo,
Deus menino
Exposto
Num presépio de gesso!
E nunca foi tão santa no teu rosto
Esta paz que me dás e não mereço.
É fingida também a neve
Que te gela a nudez.
Mas gosto dela assim,
A ser tão branca em mim
Pela primeira vez.
Miguel Torga
Foto: autoria desconhecida
Desejo a todos um Natal muito feliz.
Um 2013 de muita poesia!
Toda
rua tem memória,
tem saudade;
dos transeuntes amenos
que pontuam seus passos
de incógnito paradeiro;
do peso da solidão
sob a sola dos sapatos
dos que se perdem
em tão curto trajeto;
da estreanheza do lugar
dos que se encontram
perdidos na intimidade
de seus sonhos.
Toda rua tem memória,
tem saudade;
de um tempo em que seu nome
era só promessa escrita
em algum papel
quando um bosque cobria de verde
esse asfalto,
que segrega casas lado a lado.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida
Condenada
fui
á clausura de incontáveis ausências,
ladeada
por uma solidão de distâncias.
Reclusa
e nomeada
de
premonitório isolamento,
abstraio-me
de olhares incertos,
entoando
o chamamento
silente
dos reflexos
retidos
na memória de algum tempo.
Circunscrita
de labirintos
excessivos
de saudade,
recobro,
na
eufonia de cada instante,
o murmúrio inaudível de olhares
perdidos
na inevitabilidade do tempo.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida
para Luis Henrique
Acalentado
por
um
sonho antigo,
nasceste
primeiro
em
pensamento,
embalando
de afeto
o
colo do destino
de
uma mãe-menina.
A
vida então te deu à luz,
para
perpetuar a esperança
nos
olhos de cada amanhã,
renascendo
eternamente
nas
retinas dos teus antepassados.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida
Quando
tuas mãos
tocarem
então as minhas,
voluntariamente
presas
às
algemas do desejo,
instaurar-se-á
o silêncio
no
equilíbrio desse instante,
extinguindo
reincidentes saudades.
Não
importa o quão estejam
as
mãos sulcadas pelo tempo,
o coração sempre faz a idade
parecer
menina.
E
nesse dia inaugural da realização
dos
meus sonhos,
será
alvorada no horizonte
do
meu peito,
com
a vida finalmente amanhecendo.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto Francini Saldanha
Não
tenho o dom
de
desvendar reflexos,
mas
sei que meu olhar
foi
concebido de promessas
do
teu,
reverberando
um aquiescente
silêncio
de esperas.
O
luzidio reflexo dos nossos olhos,
cifrados
de poesia e desejo,
criou
entre nós um sortilégio-encanto,
tornando-nos
incapazes
de
quebrar a superstição sagrada
desse
silêncio.
Elizabeth F. de Oliveira
Peregrino, incansavelmente,
um caminho tingido por uma saudade,
na rota ao sul da solidão mais errante.
Um caminho circunscrito
por solitários campos,
arados indelevelmente
pela enigmática perfeição do silêncio.
Elizabeth F. de Oliveira
para Greice
Música e poesia
deram-se as mãos,
num gesto cúmplice de afeto.
E, de autenticidade,
pintaram-se os rostos,
para que, somente pelos olhos e pela boca,
fulgurasse a magia de um teatro
impregnado de sons e palavras,
ideias e ideais,
partilhando um pão carinhosamente
levedado por acordes e versos;
flagrante fascínio
de uma plateia cativa de sonhos.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: informe a autoria
O Teatro Mágico http://oteatromagico.mus.br/

Envelhecemos com uma vara
de medir o sol na linha do olhar.
Não entendemos os sinais inscritos
nas margens do abismo.
Nem os bosques onde se abrigam
as sombras e a chuva.
Nem a misteriosa relação dos astros
no lado mais silencioso dos céus.
Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem
quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros
é tão nítido como o sopro do medo que transtorna
a leve inclinação das planícies.
Graça Pires
Uma Vara de Medir o Sol
É com grande prazer que recomendo o livro UMA VARA DE MEDIR O SOL, pela Editora Itermeios, da consagrada poeta portuguesa Graça Pires. Como é seu primeiro lançamento no Brasil, é uma oportunidade única de conhecer um pouco do trabalho dessa grande poeta. E tenho certeza de que, quem fizer a aquisição, terá em suas mãos não somente um livro de poesia, mas um rosário inteiro de emoções desfiadas sob uma luz intensa de metáforas capazes de nos deixar perplexos, tamanha a intimidade que a autora com elas mantém.
Ao clicar no título dessa postagem, você será redirecionado ao site da editora para a adquisição do livro.
Boa leitura!
UMA VARA DE MEDIR O SOL de Graça Pires
O imaginário poético de” Uma vara de medir o sol” elabora-se a partir de silêncios e memórias.
Aqui se procura, no pleno dizer dos sentidos, a geografia das coisas amadas e sofridas.
Aqui se revela a inquietude de quem vê com perplexidade e assombro o nosso mundo, quando reparamos nele com o olhar de uma descoberta mais lúcida.
Aqui se teme que a persistente proximidade do abismo aumente o nosso desamparo e os nossos medos, habitantes que somos do mesmo espaço onde que se acoitam pressentimentos e angústias primordiais.
Aqui se tenta ficar mais perto de um território filtrado pela luz de pretéritos crepúsculos e de límpidas manhãs futuras.
Editora Intermeios
Percorro as palavras
num ritual antigo,
ancestral das minhas emoções,
para nomear o teu lendário regresso.
Porque são as palavras
o invólucro perfeito do desejo,
a redoma mantenedora
de todos os significados.
E neste universo de infinitas
etimologias, preservo intacta
a semântica da tua imagem,
já mítica,
no esboço da minha memória.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto Ricardo Almeida
Quando meus olhos
se amalgamam aos teus,
num gesto uníssono de cumplicidade,
teu rosto desmorona, vertiginosamente,
na emoção de um sorriso,
tornando audível
o âmago de um silêncio
somente habitado na euforia do desejo,
comum à reciprocidade inata dos amantes.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto Angela Silva
Perpetuo, nos olhos,
a solidão de todos os labirintos.
Porque a solidão por si só
não basta,
é preciso também estar condenada
a um caminho sem volta,
isento de possíveis regressos;
um caminho circunscrito
pela eternidade de um agora que
jamais será pretérito,
jamais será memória.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Mychelle de Andrade Pavão
Leio o teu nome
na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
no milagre dobrado
de ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
meninos pobres em currais de gado,
crianças que são ânsias alargadas
de horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
a divindade é o menos.
Miguel Torga
Foto: autoria desconhecida
A luz se apagou em meus olhos.
O que neles reside
é uma opaca lembrança
entornada de mágoas.
Já não há nascente,
o que me resta é o crepúsculo
de uma desavisada sombra de saudade.
Elizabeth F. de Oliveira
O tempo enevoou meus olhos
com um halo de encantatórias promessas.
Embriagada pela miragem do teu regresso,
fui abruptamente surpreendida
pela ofuscante nitidez da verdade,
intuição involuntária
da clarividência dos meus enganos.
Elizabeth F de Oliveira
Foto 'Clarividência' de Ana Martins
A inerme ingenuidade das manhãs
esconde o rito latente dos cotidianos;
ameniza,
com um tênue traço de candura,
a pressa frenética com que se
deflagra a vida.
Anônimos, permaneceremos,
com uma velada promessa
nos olhos de um azul eterno,
sob um céu nítido de esperanças.
Elizabeth F de Oliveira
Foto sem autoria
Entre mim e ti
há um caminho
pontilhado de reticências,
há um desassossego
nos parênteses da espera.
Não sei se pontuo de interrogação
o muro de equívocos
que nos separa
ou se aguardo pacientemente,
nas entrelinhas da saudade,
a etimologia do teu regresso;
pois é aqui nesse exílio,
que, por ti, sempre realizo
a extradição poética
das minhas palavras.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto Daniel Pedrogam
Retoquei a linha do horizonte
no afã de me livrar
do crepúsculo da solidão,
penumbra prematura da minha sede.
Mas meus olhos divagaram
perplexos de saudade,
confinando-se voluntariamente
no último instante do poente da memória,
à espera de um milagre
na rutilância secreta dos teus olhos.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Álvaro Manuel Mendes Cordeiro
Sobrevivi ao naufrágio
de uma saudade avassaladora
de sonhos imperfeitos.
Vagas sem rumo de mim,
ondas revoltas
sobre o meu barco sem mar,
e uma bússola de incertezas
orientando o norte do meu peito.
Sobrevivi, resgatada
por uma das ilhas desertas
da minha solidão sem nome.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Teutoaero
Tu inauguraste
a galeria do meu sentimento
com a tela mais impressionista
da emoção.
Emoldurada de sonhos,
é a obra-prima dos meus anseios,
incondicionalmente presa
à parede surreal da minha
excessiva espera.
Elizabeth F de Oliveira
Quadro de Monet

para Graça Pires
Tu és gratia plena
em minha poesia.
Fez-se luz
no horizonte das minhas palavras,
na semântica
da oração dos meus versos.
Bendito é o fruto
do teu sentimento,
que verte de águas
os caminhos da minha sede.
Amen.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Eduardo Breviglieri
Sempre vivi
Intercalada de saudades,
mergulhada, semanticamente,
na latência dos sonhos.
É como se a aurora
nunca raiasse em meus dias,
coexistindo em mim
um crepúsculo permanente de vida.
A timidez da luz
sempre foi constante
no céu do meu domínio,
instaurando perenemente
uma meia-claridade de sonhos
e velados anseios.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Bluu
À sombra de todas as vozes,
escondem-se silêncios opacos, difusos,
que se mesclam ao clamor dos sons.
É preciso desvendar-lhes o contorno impreciso
para pressenti-los nas entrelinhas sonoras
dos seus oscilantes movimentos.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Manuel Madeira
Quando o cansaço cerra
os meus olhos com a lâmina
pesada do cotidiano,
habito, instantaneamente,
o universo paralelo do meu peito.
Em um lampejo eterno de segundo,
reviso lágrimas e sorrisos;
dias ensolarados de êxtase
e tempestades de tristezas.
Revejo sonhos, propositalmente
esquecidos na frustração do tempo.
Reacendo lembranças boas,
Mantidas, bem guardadas,
para casos de sobrevivência.
Reanimo os amores que carrego
na asfixia do meu peito.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Marta Ferreira

Não é possível reter a voz das intempéries
quando ela chega ao vértice da vigência da vida.
Ela sibila bem trajada de metáforas,
adornada de analogias, para disfarçar
os olhos desavisados.
Mas com o som que ecoa implorante de mudanças,
pode-se pressentir o chamamento retumbante da vida.
Mudanças assinalam a próxima tempestade,
reiterando a urgência dos sonhos.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto Street Dog

O brilho dos teus olhos
prescindem palavras;
são eles mesmos a grafia
mais perpétua do sentimento,
sobressaltando inadvertidamente
os meus, num voo invisível
e arrebatador de desejos consentidos.
Elizabeth F de Oliveira
Foto: Fátima Joaquim

A solidão dos dias adentrou
a minha casa,
fez-me refém da poesia,
trancando-me em algum porão
de mim mesma,
esquecida,
no escuro inevitável do tempo.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Mark Freedom
Inspirei-me na Odisséia de Homero
Para versejar meus sonhos;
Invoquei a força de Hércules para realizá-los.
Mas em algum momento,
A saudade abateu-se sobre mim,
Anulando a força dos meus heróis e
Quebrando todo o encanto que havia.
Tornei-me prisioneira,
Cativa de mim mesma,
Perdida, no labirinto dessa saudade.
Elizabeth F de Oliveira
Foto Julio Cezar Ramos Lobo
Desesperei os olhos
quando me vi margeada
por uma sequência de abismos.
O recuo é póstumo,
o passo à frente, a absolvição.
Não é sempre que temos
a escolha do sepulcro.
Elizabeth F de Oliveira
Foto: Rui Serrano de Alegria