quarta-feira, 28 de maio de 2008

Jogo de Sedução


Seminua,
A caneta se insinua
Transparente
Em um aparente
Jogo de sedução.
Promete plena satisfação
E momentos intermináveis
De prazer.
Como sempre obediente,
Sinto que vou aquiescer
E me render totalmente;
Para que entre os lençóis da cama,
Chegue então ao nirvana
Por ter-me de todo sucumbido.
E ao raiar do dia,
Não terei me arrependido
Por entregar-me à poesia
Nesse amor tão desmedido.








Elizabeth F. de Oliveira

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Todos...


Todos me falam de ti
com palavras ambíguas.
Fui, eu sei, uma suspeita
de luz em teu olhar.
Virados a levante,
os meus cabelos
eram labaredas em teus dedos.
Na hora do combate
me nomeavas,
como se rezasses.
Pinto-a na minha imaginação
como a desejo, tanto na beleza
como na nobreza,
disseste.
E vejo a minha expressão
na cor dos teus olhos.
Tão cúmplice, eu,
de tamanho assombro.







Graça Pires
Em 'Uma extensa mancha de sonhos'

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Violino


Para Cássia



O violino
É meu instrumento predileto,
É por ele que dissemino
Todo o meu afeto;
É com ele que afino
As notas da minha existência
E já escrevo com veemência
Na partitura da vida.
Não importa se a clave
É de Sol ou de Fa,
Sempre vai ter lugar
Para o que tiver bom som.
Quando estiver incorreto,
Eu corrijo o tom
Dos bemóis e sustenidos da vida,
Que um dia foi bem mais dolorida
Por não estar no compasso correto.
Ao tocar a primeira canção,
Transformei meu sonho em realidade
E tornei-me composição
Para minha perplexidade.









Elizabeth F. de Oliveira

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A Outra Margem do Tempo XXXIX


Os flamboaiãs tecem um sopro de cores,
de partituras vivas a incandescerem
o azul, o incêndio da manhã aberta.
Todo o esquecimento, as ruínas
e os escombros do vivido, o fracasso
de não reter as semeaduras e os ventos,
silenciaram-se, súbitos, ante essa floração
mais viva que o tempo. Os flamboaiãs
ensinam-me a não morrer, a pulsar
mais que a efêmera passagem dos barcos,
dos pássaros em perene exílio. Inscrevo-me
nesse pólen, nessas chamas a inaugurarem
uma luz mais plena que a do sol.
Batizo-me nos galhos onde principiam
os astros e os quatro pontos cardeais.
Os flamboaiãs tecem, em mim, um outro
tempo, instante vivo de todas as florações.







Alexandre Bonafim
www.arquipelagodosilencio.blogspot.com
Foto Fernando Gabeira

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Espera


para Graça Pires




As tuas palavras
Cruzaram um oceano de espera
E declamaram em mim
Versos do teu entendimento,
Da tua poesia de viver;
ecos sentidos
nos quatro cantos da minha alma.








Elizabeth F. de Oliveira

terça-feira, 25 de março de 2008

Inquietamente


Inquietamente
procurei dentro de mim mesma
o reverso do teu rosto:
itinerário musical nas ruínas de um sonho.








Graça Pires
Em 'Conjugar Afectos'

segunda-feira, 10 de março de 2008

Escolha


Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Vôo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.


Opto pela loucura, com um grão
de liberdade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.


Desculpem, mas devo dizer:
eu
quero o delírio.





Lya Luft
Em 'Pra não dizer adeus'

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Poema Inacabado


Um poema inacabado
É sempre muito frustrante,
Ter que deixá-lo de lado
Porque a inspiração,
(Companheira constante)
Num gesto de insubordinação,
Preferiu a vida itinerante
E mudou de coração.
O papel ficou jogado
E o possível poema
(não terminado)
foi então abandonado.
Perdeu-se o tema.







Elizabeth F. de Oliveira

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Significação


para Graça Pires


Assombra-me o sentimento
As paisagens semânticas do teu universo.
Perco-me nas curvas metafóricas
Pontilhadas diligentemente
Com a caneta da tua emoção.
Afogo-me nas correntezas
Das tuas palavras tão plenas
De uma significação oculta,
Mas transparente.
Aquieto-me quando finalmente
Consigo fundir-me com teu
Emaranhado poético.






Elizabeth F. de Oliveira

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Pé de Jambo


Chove purpuramente
No meu quintal
Flores em fragmento.
Poesia visual
Só para o meu alento;
Vestígios da estação,
Cobertor de sentimento,
Que se deita sobre o chão,
Cobrindo a poeira do vento.
Por isso, cruzo os dedos,
Para que caia mais flor
E revele todos os segredos
Da poesia púrpura do Criador.






Elizabeth F. de Oliveira
Foto de Fernando Stickel

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Madrugada


Debruçada sobre madrugadas vazias,
Ausentes de pensamentos, rimas e sonhos,
Repouso sobre a esterilidade do nada;
Enlevo único entre sombras,
Restos de luz e matizes de solidão.





Elizabeth F. de Oliveira

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Origami


Dobra que dobra,
redobra.
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.





Flora Figueiredo

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Poema às Artes Mágicas


Por artes mágicas
e outras lógicas

nos rigores do mar
nas velas brancas
como espuma de ar

derribando os continentes
e as ilhas
por onde andei

nas noites e nos dias
me aventurei
ao interior dos vulcões

e vi
nas noites do sonho
e utopia

a lua clara
em pleno dia.






Vieira Calado
www.vieiracalado-poesia.blogspot.com

Urgentemente


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.





Eugénio de Andrade

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Fonte


É à beira de uma fonte
Que junto as idéias,
Rego as azaléias do meu coração.
Essa fonte de inspiração,
É somente uma ponte,
Talvez seja um pretexto
Para eu captar um tema,
Colocá-lo em um contexto
E transformá-lo em poema.





Elizabeth F. de Oliveira

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Papelão


Joguei minhas cartas de amor
no lixo do papel reciclado.
Ignoro o rumo que lhes foi dado.
O fato é que não me surpreendo,
se acaso encontro um coração batendo
dentro de uma caixa de sapato.




Flora Figueiredo

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Novo Ano


Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial.Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para frente tudo vai ser diferente!



Carlos Drummond de Andrade

Ano Novo


O Ano Novo ainda não tem pecado:
É tão criança...
Vamos embalá-lo...
Vamos todos cantar juntos
em seu berço de mãos dadas,
A canção da eterna esperança.



Mário Quintana

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Pensando


Se tivesse pensado melhor a vida,
Certamente a tornaria mais divertida;
Não pensaria tanto
Pra tomar qualquer decisão,
Não deixaria a razão
Se instalar por todo o canto.
Muito mais autonomia,
Eu daria ao coração,
Que faria da poesia,
O seu manual de instrução.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto Lisboeta

Frutífero


E se testarmos as metades das laranjas?
Deixe a sua acoplada com a minha.
Se não ficar direito, a gente ajeita.
A de baixo parece estar perfeita,
a de cima, se conserta.
Eu mexo meu pedaço, o seu aperta
até que as partes fiquem ajustadas.
Certamente iremos descobrir
a melhor maneira de extrair
o sumo para doce laranjada.




Flora Figueiredo
Foto Michelle Utlik

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Memória


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.





Carlos Drummond de Andrade
Foto Michelle Utlik

Aponta


Na ponta do lápis
me vejo
melhor que em espelho.





Fábio Rocha
Foto Michele Utlik

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Perfil


De passagem,
como a véspera imprecisa
do poema,
principia em mim
a planície agreste
da solidão dos outros.
E a não ser
o silêncio poente
dos meus olhos,
tudo o resto me diz
que sou um pássaro
a voar, inconsequentemente,
no sentido das palavras.




Graça Pires
www.ortografiadoolhar.blogspot.com

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Receita


O poema saiu minguado.
Não era o que eu queria;
O verso estava salgado,
Embora doce estivesse a poesia.
O tempero andou desandando,
Nessa receita de inspiração,
O sentimento acabou solando,
Por falta de motivação.



Elizabeth F. de Oliveira

A Arte de Ler


O leitor que mais admiro
é aquele que não chegou até
a presente linha.
Neste momento já interrompeu
a leitura e está continuando
a vigem por conta própria.



Mário Quintana

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Olhai os lírios do campo






Estive pensando muito na fúria cega com o que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esqueceram o que têm mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não mais almas humanas para morar neles? É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.



Érico Veríssimo
Foto Joilton Obom

Fernando Pessoa


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...
São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.
São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.



Fernando Pessoa, 5-9-1933

Leminski



Disfarça, tem gente olhando.
uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando
olhando ou sendo olhado
Outros olham pra baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.




Paulo Leminski

Aula de Português



Dizer sem palavras,
amar sem vírgulas,
sofrer sem sintaxe,
viver sem parêntese,
sublinhando o gesto,
acentuando o Tempo,
conjugando o resto...




Bruno Kampel

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Outono




Meio-tom.
Bom termo entre os excessos,
equilibrado confesso,
pondero entre extremos.
Outono,
coleciono trechos de poesia
tirado de cores e de brisas,
do peito da tarde que se descamisa
em seu desfecho.
Da maturidade, deixo a fruta
que se queda pronta sobre a terra
quando minha temporada já se encerra
e cede vez à estação substituta.




Flora Figueiredo
em 'Estações'
Foto Pedro Casquilho