terça-feira, 31 de maio de 2011

EXTRADIÇÃO





Entre mim e ti
há um caminho
pontilhado de reticências,
há um desassossego
nos parênteses da espera.
Não sei se pontuo de interrogação
o muro de equívocos
que nos separa
ou se aguardo pacientemente,
nas entrelinhas da saudade,
a etimologia do teu regresso;
pois é aqui nesse exílio,
que, por ti, sempre realizo
a extradição poética
das minhas palavras.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto Daniel Pedrogam

terça-feira, 17 de maio de 2011

RETOQUE


Retoquei a linha do horizonte
no afã de me livrar
do crepúsculo da solidão,
penumbra prematura da minha sede.
Mas meus olhos divagaram
perplexos de saudade,
confinando-se voluntariamente
no último instante do poente da memória,
à espera de um milagre
na rutilância secreta dos teus olhos.




Elizabeth F de Oliveira
Foto Álvaro Manuel Mendes Cordeiro

segunda-feira, 11 de abril de 2011

SEM NOME





Sobrevivi ao naufrágio
de uma saudade avassaladora
de sonhos imperfeitos.
Vagas sem rumo de mim,
ondas revoltas
sobre o meu barco sem mar,
e uma bússola de incertezas
orientando o norte do meu peito.
Sobrevivi, resgatada
por uma das ilhas desertas
da minha solidão sem nome.









Elizabeth F de Oliveira
Foto Teutoaero

segunda-feira, 28 de março de 2011

ARTE





Tu inauguraste
a galeria do meu sentimento
com a tela mais impressionista
da emoção.
Emoldurada de sonhos,
é a obra-prima dos meus anseios,
incondicionalmente presa
à parede surreal da minha
excessiva espera.






Elizabeth F de Oliveira
Quadro de Monet

terça-feira, 15 de março de 2011

GRATIA




para Graça Pires




Tu és gratia plena
em minha poesia.
Fez-se luz
no horizonte das minhas palavras,
na semântica
da oração dos meus versos.
Bendito é o fruto
do teu sentimento,
que verte de águas
os caminhos da minha sede.
Amen.








Elizabeth F de Oliveira
Foto Eduardo Breviglieri

quarta-feira, 2 de março de 2011

MEIA-LUZ







Sempre vivi
Intercalada de saudades,
mergulhada, semanticamente,
na latência dos sonhos.
É como se a aurora
nunca raiasse em meus dias,
coexistindo em mim
um crepúsculo permanente de vida.
A timidez da luz
sempre foi constante
no céu do meu domínio,
instaurando perenemente
uma meia-claridade de sonhos
e velados anseios.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Bluu

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

SILÊNCIOS





À sombra de todas as vozes,
escondem-se silêncios opacos, difusos,
que se mesclam ao clamor dos sons.
É preciso desvendar-lhes o contorno impreciso
para pressenti-los nas entrelinhas sonoras
dos seus oscilantes movimentos.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Manuel Madeira

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

UM INSTANTE





Quando o cansaço cerra
os meus olhos com a lâmina
pesada do cotidiano,
habito, instantaneamente,
o universo paralelo do meu peito.
Em um lampejo eterno de segundo,
reviso lágrimas e sorrisos;
dias ensolarados de êxtase
e tempestades de tristezas.
Revejo sonhos, propositalmente
esquecidos na frustração do tempo.
Reacendo lembranças boas,
Mantidas, bem guardadas,
para casos de sobrevivência.
Reanimo os amores que carrego
na asfixia do meu peito.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Marta Ferreira

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

MUDANÇAS








Não é possível reter a voz das intempéries
quando ela chega ao vértice da vigência da vida.
Ela sibila bem trajada de metáforas,
adornada de analogias, para disfarçar
os olhos desavisados.
Mas com o som que ecoa implorante de mudanças,
pode-se pressentir o chamamento retumbante da vida.
Mudanças assinalam a próxima tempestade,
reiterando a urgência dos sonhos.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto Street Dog

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

VOO






O brilho dos teus olhos
prescindem palavras;
são eles mesmos a grafia
mais perpétua do sentimento,
sobressaltando inadvertidamente
os meus, num voo invisível
e arrebatador de desejos consentidos.






Elizabeth F de Oliveira
Foto: Fátima Joaquim

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

REFÉM





A solidão dos dias adentrou
a minha casa,
fez-me refém da poesia,
trancando-me em algum porão
de mim mesma,
esquecida,
no escuro inevitável do tempo.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Mark Freedom

segunda-feira, 5 de julho de 2010

HERÓIS


Inspirei-me na Odisséia de Homero
Para versejar meus sonhos;
Invoquei a força de Hércules para realizá-los.
Mas em algum momento,
A saudade abateu-se sobre mim,
Anulando a força dos meus heróis e
Quebrando todo o encanto que havia.
Tornei-me prisioneira,
Cativa de mim mesma,
Perdida, no labirinto dessa saudade.








Elizabeth F de Oliveira
Foto Julio Cezar Ramos Lobo

domingo, 4 de abril de 2010

ESCOLHA




Desesperei os olhos
quando me vi margeada
por uma sequência de abismos.
O recuo é póstumo,
o passo à frente, a absolvição.
Não é sempre que temos
a escolha do sepulcro.





Elizabeth F de Oliveira
Foto: Rui Serrano de Alegria

quinta-feira, 18 de março de 2010

PRESSA


Sublinho o horizonte
com as pegadas da minha retina;
contorno-lhe de metáforas,
vislumbrando um nascente
significativo de urgências.
O tempo não desliza languidamente
sobre os meus dias,
mas urge, numa pressa
devoradora de vida.
É preciso retomar
a trilha do amanhã,
que se insinua
em algum lugar do entardecer.







Elizabeth F de Oliveira
Foto Fernando Varela

terça-feira, 2 de março de 2010

INSÔNIA


Castelos de insônia
sombreavam a orla
da minha noite
à frente de um mar de silêncios

Onde meu sono
não anoitecia
nem amanhecia...

Longe, na pátria
dos desejos,
sereias faziam juras,
lançavam-me encantamentos...
mas meu coração
não cedia!

Passei a noite
de olhar a noite
enquanto lá
no mirante das estrelas


O tempo desfraldava -
lentamente -
um outro dia.


Jaime E. Cannes
Em Tarô para a Autotransformação e a Cura
Imagem Osho Zen Tarô

domingo, 20 de setembro de 2009

NO WHERE





Retorno ao ponto
de origem;
onde nunca estive,
de onde nunca saí.
Mas retorno,
sem sequer ter voltado.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Gonçalo Cavaleiro

domingo, 9 de agosto de 2009

E chega um dia...



E chega um dia em que reconhecemos
finalmente
a injustiça das palavras -
exactamente as mesmas
para quem vai e para quem fica


um dia
em que não há mais passado para contar
nem mais futuro para viver


apenas uma velha cantiga a embalar
uma casa desaparecida
e este limbo ocasional
onde o corpo
espera que anoiteça





Alice Vieira
Em 'O Que Dói às Aves'
Foto Carla Salgueiro

domingo, 19 de abril de 2009

REVOADA






Mergulhei na revoada
multicolorida das borboletas,
na ânsia de confundir-me com elas.
Eram tantas asas sussurrando
em meu ouvido, que recordei
a iminência da liberdade
já traçada em meu peito.
Eram tantas asas,
que pude sentir
a leveza do pensamento,
há muito já alado,
aguardando somente o sopro
transparente de uma tal liberdade.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Alberto Marques

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Busca


Quantos rosários de oração
hei de desfiar no silêncio das mãos?
Prece a prece, os dedos urgem
a proclamação de uma paz
jamais vista, jamais alcançada
na hesitação da vivência.
Os olhos testemunham tristes
a ansiedade que adormece
na busca dessa paz apaziguadora
das insistentes angústias.










Elizabeth F de Oliveira
Foto Cesar Guizzo

quinta-feira, 19 de março de 2009

Estações



Foi o outono, eu sei,
que esculpiu em meu rosto
as delicadezas do cansaço.
Foi ele que sulcou a minha pele
para arar de lucidez
a minha última estação.
O verão, tão próspero de vida,
não retornará à minha existência.
Mas poderei me aquecer
com a lenha de sentimentos,
que ainda arde em meu peito.
É com ela que construo fogueiras
e aqueço as lembranças
das estações passadas.




Elizabeth F de Oliveira
Foto Vanessa Schwark

quarta-feira, 4 de março de 2009

NOVO CAMINHO






Entreolho a noite
como quem desconfia
da possibilidade da manhã.
Recolho os passos de solidão
e recuo no trajeto das hesitações.
Redescubro um caminho novo
tatuado de nem tão utópicas realizações.
A vida é mapeada de escolhas.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Bruno Raposo

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ORLA





Bebo o mar
na boca dos meus dias,
na ânsia de matar a sede dos olhos.
Sorvo a maresia nos lábios,
mastigo o sal das areias.
Assisto o divagar das ondas,
ensaiando o vai-e-vem
para algum lugar que não se concretiza;
é a minha esperança imersa
na orla dos meus dias.







Elizabeth F. de Oliveira
Foto Pedro Noel da Luz

sábado, 24 de janeiro de 2009

CONFESSIONÁRIO





Compadeço-me
na reclusão dos dias,
jejuando uma saudade
que me penitencia.
E no confessionário
do sentimento,
exponho o meu maior pecado:
o amor que me nutre de você.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Paulo Jorge Costa Figueira

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Florada da Emoção





Caríssimos amigos, tenho o prazer de convidá-los para o lançamento dO meu livro 'Florada da Emoção', dia 17 de janeiro no São Luis Shopping às 19 hs.


São Luis, Maranhão, Brasil.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Primavera





A tua presença lançou-se
Sobre os meus dias,
Tal qual a flecha de Eros,
Para contaminar-me
De uma emoção perdida,
Cujo eco ensurdecia
Somente a minha alma.
Agora, já atingida,
Bebo, comovida,
Da taça orvalhada das doces manhãs
De uma primavera anunciada
Para todos os meses do calendário.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Pedro Miguel Esteves Cardoso

sábado, 27 de dezembro de 2008

Nascente




Não fosse a severidade das montanhas,
Que me aponta
A sinuosidade do caminho,
Ter-me-ia chegado à nascente
Apaziguadora de todas as sedes.
A intermitência do desejo
Salva-me de uma secura
Mortalmente avassaladora.
Ainda não desisti de escalar
Os aclives da hesitação,
Para matar a minha sede
Fomentadora de todas as minhas
Silentes angústias.





Elizabeth F de Oliveira
Foto António O Matos

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Antes que chegasses...





Antes que chegasses, encostei ao coração
a memória imaginada do teu rosto.
E comecei a amar-te quando disseste,
em segredo, quanta neve caiu sobre o teu peito.
Agora tudo será indelével nas palavras que me dizes.







Graça Pires
Em 'Quando as estevas entraram no poema'.
Foto Daniel Oliveira

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Cumplicidade


Lamento
que da tua boca
sobressaiam silêncios;
que nos teus olhos
desenhem-se miragens.
Só me resta
extrair dos teus dedos
o contorno preciso
das linhas de afeto
que sublinham
vivências desenhadas
pela cumplicidade dos anseios.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Cláudia Barros

sábado, 15 de novembro de 2008

Manhãs




Compreendo a melancolia
Do nascente que sepulta,
A cada velho dia,
Os últimos raios de luz
Num poente instante.
As manhãs renascem
Para morrerem lentamente
No ocaso de todo dia.
Elas ensaiam,
Bem diante dos nossos olhos,
O momento derradeiro.
É quando tudo torna-se finito,
Efêmero,
Sem a mínima chance de absolvição.





Elizabeth F de Oliveira
Foto Raphael o pensativo

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Descaminho


Minhas mãos me doem
O caminho,
Calejam-me a caneta
De dedos de insistência.
A direção que me aponta
O papel é trajeto único,
Caminho sem volta,
Volta sem caminho,
Percurso sem curso,
Caminho que se desfaz,
Descaminho.
Quedo do cansaço,
Visto que sobre mim,
Ele caminha
E com palavras pisa-me
O itinerário de pensamentos;
Sem remetente,
Sem destinatário,
Mas com um guia de persistências.






Elizabeth F de Oliveira
Foto Descaminho/Márcio Negrão