sexta-feira, 11 de outubro de 2013

ÁTIMOS



                                                                   para Jamil Damous



Palavras que deslizam
a saudade que te habita,
poesia inaudita
nas entrelinhas do tempo.
O que foi ou não foi,
mas poderia ter sido;
o que não aconteceu
ou o acontecido.
Tudo ganha espaço
no terreno da memória,
latifúndio da tua história
do que foi ou não vivido,
cercanias de um mundo
habitado ou esquecido.
Entre o quarto, o céu e a sala,
o vento, a parede e o corredor
tua poesia percorre solta
catalogando átimos de amor.





Elizabeth F. de Oliveira
Capa do livro 'O Rei do Vento' de Jamil Damous

Poema  inspirado na leitura desse livro.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A NOITE LÁ FORA







Estou com pena 
de deixar a noite lá fora,
nessa madrugada de setembro sem outubro.
Cerrar a porta e abandoná-la
sem despedida, mas com a assinatura
do vento nos cabelos.
Estou com pena 
de deixar a noite lá fora,
Com a lua cheia tangendo
sozinha o céu,
arrebanhando as estrelas,
como se elas já não tivessem
passado pela porteira do infinito.
Estou com pena
de deixar a noite lá fora,
com esse vento
inventando formas,
desdenhando das sombras
que se alternam à sua vontade.
Estou com pena
de deixar a noite lá fora,
assim, ébria de beleza,
desacompanhada de mim.

Estou com pena de quem deixa a noite lá fora.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida





terça-feira, 17 de setembro de 2013

LABIRINTO DAS CERTEZAS




Eu me perdi 
no labirinto da verdade.
E aprendi que o caminho
da certeza nem sempre conduz
à porta de saída
e que nem toda verdade
é precisa ou exata;
sempre há um atalho
conduzindo a estranhas 
incertezas.
Quem se perde,
não está de todo perdido,
porque perder-se é também 
encontrar-se ou, quem sabe,
reconciliar-se com o caminho.






Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Daniel Oliveira


quarta-feira, 4 de setembro de 2013

LABIRINTO DO TEMPO







Esquecida estou
nesse labirinto do tempo.
Rasgam-se séculos
por esses corredores 
que são o meu périplo.
Deambulo solitária
sem respostas ou salvação;
essa clausura imposta
tem o peso de alguma maldição.
Perco-me na condenação
desses corredores sem fim
mas perdida mesma
estou é dentro de mim
nesse espaço-tempo
que não vigora
onde as noites prevalecem
sobre a aurora,
labirinto dentro de mim.
E quando acordo
desse cárcere onírico
sinto meus pés
nesse espaço físico,
frio e sem saída
do labirinto do tempo
onde me encontro
indefinidamente perdida.




Elizabeth F de Oliveira
Arte de Salvador Dali





sexta-feira, 9 de agosto de 2013

RETRATO

                                                 



Carregas no peito
um cárcere de mágoas,
aprisionadas de desacertos
e desencantos.
O tempo  te arde 

na pele sulcada
pelas linhas do desalento.
Teus olhos espelham
uma esperança aguilhoada
de incertezas,

sangrando-lhes os reflexos
de um futuro.
Agora vives encolhido
nas rusgas do tempo,
cuja herança maior é
a memória dos ocasos,
a certeza dos outonos
e o olor de muitas saudades
contemplado nas vicissitudes

do afeto.
Celebrar crepúsculos é
teu mais ousado sonho,
porquanto carregas a solidão

fossilizada nos ossos.





Elizabeth F. de Oliveira

Imagem: Autoretrato de Vincent Van Gogh

segunda-feira, 29 de julho de 2013

CAIS








Minha mão
ancora na tua
como um cais
inaugurado no horizonte
da memória.
Agora tenho um norte
para aportar esse azul
que em meus olhos se instaura.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida



TEATRO MÁGICO





Encontrei a poesia,
de forma inesperada,
é que ela estava disfarçada
de música, teatro e magia.
Com o rosto pintado de emoção,
as palavras ganharam movimento,
gesto, mímica e entonação,
bailando livres aos acordes do vento
como notas de alguma canção.
E quem vai assistir,
não tem a menor ideia,
de que, mesmo sendo plateia,
também vai conduzir,
de forma bem marcada,
as batidas do seu coração;
poesia ajustada
em uníssona percussão,
entoando uma improvisada melodia
pra esse teatro de emoção,
tão mágico e de pura fantasia.





Elizabeth F. de Oliveira

Foto O Teatro Mágico

sexta-feira, 5 de julho de 2013

SINASTRIA








Somos compatíveis
na sinastria da solidão,
carregamos no peito
o mesmo crepúsculo
circunscrito de silêncio e desilusão.
E, na contradança do destino,
as sincronicidades se transformam
em desatino, fazendo do desencanto
nosso melhor ponto de convergência,
de eloquência da harmonia;
para que, quem sabe, juntos
e com paciência,
possamos, do peito,
desocultar a alvorada
e fazer dessa vida inabitada
um encontro inesperado
de poesia.







Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

segunda-feira, 10 de junho de 2013

ENSEADA





Fulgura em teus olhos
uma luz sufocada,
ânsia prévia de ser mar,
antes de ser enseada;
testemunha ocular
dessa saudade represada
na solidão do teu olhar.





Elizabeth F. de Oliveira
Pintura de Monet






terça-feira, 28 de maio de 2013

NEM AZUIS, NEM VERDES


                                                                                                 para Karoline



Os teus olhos se situam
nem tanto ao norte, nem tanto ao sul;
em alguma longitude inexistente,
que navega um brilho transparente
entre o verde e o azul.
De uma cor quase inadmissível
não fossem os teus olhos
refletirem o impossível.







Elizabeth F. de Oliveira
Foto autoria desconhecida



sexta-feira, 10 de maio de 2013

TUAS PALAVRAS






Tuas palavras tingem de poesia 
os meus olhos
espelhados de arredios barcos
na solidão dos oceanos.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Álvaro Manuel Mendes Cordeiro

sexta-feira, 26 de abril de 2013

BARDOS








Somos remanescentes
da linhagem do afeto,
bardos, de um outrora
sem tempo, com versos
manuscritos de silêncio.
Nossa bagagem nesta vida
é séquito de mágoas no peito
e tristeza imerecida nos olhos,
ignomínia das lembranças
acumuladas no estio da existência.
Nossa trajetória é impiedosamente
sulcada pela inclemência da solidão,
ponto de interseção de nossos
inauditos destinos.





Elizabeth F. de Oliveira

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DÉDALO








Percorro a singular
geografia do teu universo,
imerso de palavras, acordes
e imagens que tão
bem definem a genealogia
do teu desencanto.
Dédalo de emoções,
onde a tristeza peregrina
paralela à solidão;
ínvio caminho,
margeado pela veemente 
eloquência do silêncio.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

sexta-feira, 22 de março de 2013






                                                                 para Elizabeth F. de Oliveira


As tuas ancas são uma pequena embarcação
pronta a seguir viagem.
Não esperes que o vento favorável
manobre o teu veleiro.
As vagas atravessam-te os ossos.
E, noite dentro, a estrela polar
brilha na proa azul dos teus olhos.




Graça Pires 
www.ortografiadoolhar.blogspot.com
Pintura de Salvador Dali




Este poema foi um presente de aniversário da minha mais do que querida amiga Graça Pires, renomada poeta portuguesa, cujos versos me enchem de perplexidade. 
Graça, minha querida, o meu apreço, o meu afeto e a minha admiração! 
Agradeço esse presente inédito e eterno. 



sexta-feira, 8 de março de 2013

SOL E LUA









Somos sol e lua
perdidos de solidão
num céu inseguro
cingido de ocasos.
Somos lua e sol
suspensos na imensidão
em lados opostos, no escuro
dessa análoga saudade.
Somos noite e dia
no reverso da mesma agonia,
esperando o céu se firmar
ansiando um eclipse de poesia
para sermos enfim um par.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida




sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

RESPLANDECÊNCIA









O que resplandece em ti
são os teus olhos,
lume secreto de noites tardias,
negrume perpétuo das madrugadas
a concorrer com o brilho da alvorada
recém-colhida na plenitude do teu sorriso.






Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Dev Carvin 'Aurora Borealis'





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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIVÊNCIAS








As vivências migram
para o passado
em forma de lembranças;
como quem tem asas,
asas que voam em direção oposta,
deixando, no tempo,
um rastro indelével de saudade.





Elizabeth F. de Oliveira

Foto: autoria desconhecida





sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ESTRELAS







Quando teus olhos
ficam marejados,
vejo luzes submersas.
E constato o quanto
a natureza é sábia:
estrelas podem cair
no oceano,
sem sequer terem
morado no céu.






Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

NATAL





Nem pareces o mesmo,
Deus menino
Exposto
Num presépio de gesso!
E nunca foi tão santa no teu rosto
Esta paz que me dás e não mereço.

É fingida também a neve
Que te gela a nudez.
Mas gosto dela assim,
A ser tão branca em mim
Pela primeira vez.





Miguel Torga
Foto: autoria desconhecida




Desejo a todos um Natal muito feliz.
Um 2013 de muita poesia!


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

RUA








Toda rua tem memória,
tem saudade;
dos transeuntes amenos
que pontuam seus passos
de incógnito paradeiro;
do peso da solidão
sob a sola dos sapatos
dos que se perdem
em tão curto trajeto;
da estreanheza do lugar
dos que se encontram
perdidos na intimidade
de seus sonhos.
Toda rua tem memória,
tem saudade;
de um tempo em que seu nome
era só promessa escrita
em algum papel
quando um bosque cobria de verde
esse asfalto,
que segrega casas lado a lado.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

terça-feira, 20 de novembro de 2012

CLAUSURA


 



 

Condenada  fui
á clausura de incontáveis ausências,
ladeada por uma solidão de distâncias.
Reclusa e nomeada
de premonitório isolamento,
abstraio-me de olhares incertos,
entoando o chamamento
silente dos reflexos
retidos na memória de algum tempo.
Circunscrita de labirintos
excessivos de saudade,
recobro,
na eufonia de cada instante,
o murmúrio inaudível de olhares
perdidos na inevitabilidade do tempo.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

 

 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LUZ





 

                                                                                        para Luis Henrique


Acalentado por
um sonho antigo,
nasceste primeiro
em pensamento,
embalando de  afeto
o colo do destino
de uma mãe-menina.
A vida então te deu à luz,
para perpetuar a esperança
nos olhos de cada amanhã,
renascendo eternamente
nas retinas dos teus antepassados.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida

 

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

ALVORADA







Quando tuas mãos
tocarem então as minhas,
voluntariamente presas
às algemas do desejo,
instaurar-se-á o silêncio
no equilíbrio desse instante,
extinguindo reincidentes saudades.
Não importa o quão estejam
as mãos sulcadas pelo tempo,
o coração sempre faz  a idade
parecer menina.
E nesse dia inaugural da realização
dos meus sonhos,
será alvorada no horizonte
do meu peito,
com a vida finalmente amanhecendo.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto Francini Saldanha

terça-feira, 11 de setembro de 2012

SORTILÉGIO




 

Não tenho o dom
de desvendar reflexos,
mas sei que meu olhar
foi concebido de promessas
do teu,
reverberando um aquiescente
silêncio de esperas.
O luzidio reflexo dos nossos olhos,
cifrados de poesia e desejo,
criou entre nós um sortilégio-encanto,
tornando-nos incapazes
de quebrar a superstição sagrada
desse silêncio.
 
 
 
 
 
Elizabeth F. de Oliveira

 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

CAMINHO






Peregrino, incansavelmente,
um caminho tingido por uma saudade,
na rota ao sul da solidão mais errante.
Um caminho circunscrito
por solitários campos,
arados indelevelmente
pela enigmática perfeição do silêncio.





Elizabeth F. de Oliveira

terça-feira, 1 de maio de 2012

O TEATRO MÁGICO


                                                                                 para Greice

Música e poesia
deram-se as mãos,
num gesto cúmplice de afeto.
E, de autenticidade,
pintaram-se os rostos,
para que, somente pelos olhos e pela boca,
fulgurasse a magia de um teatro
impregnado de sons e palavras,
ideias e ideais,
partilhando um pão carinhosamente
levedado por acordes e versos;
flagrante fascínio
de uma plateia cativa de sonhos.




Elizabeth F. de Oliveira
Foto: informe a autoria


O Teatro Mágico http://oteatromagico.mus.br/