terça-feira, 19 de junho de 2018
ALZIRA DE ALÉM-MAR
Cigana
concebida nas entranhas
dos antepassados,
na clareira do tempo
onde chovem de dor
os dias.
Vieste
para bailar o presente
girando as vicissitudes
de ponta-cabeça.
Na saia,
movimentos de cura
para afogar no oceano
um passado Atlântico
de tristeza e mágoas.
Agora renasces
- sem aviso ou fronteira -
da ponta do lápis
à ponta do pés,
para interromper
o círculo vicioso
de lágrimas
que se instaurou
nos olhos dessas mulheres.
Elizabeth F. de Oliveira
segunda-feira, 21 de maio de 2018
LUCCHESI
![]() |
| Marco Lucchesi |
Minha admiração
é reticência,
contemplação -
marco sublime
diante do qual
me curvo
lacerada
por tamanha beleza.
O mesmo Marco
que me povoa
as orações
e por quem rogo
ao Universo
que lhe proteja
a existência:
primordial
única
e eterna.
O Marco,
cujos olhos
permeiam
a verdade poética
da solidão,
da distância,
do abismo
e de Deus.
Elizabeth F. de Oliveira
segunda-feira, 14 de maio de 2018
ESPIRAL
Meus sonhos
invernam
na hesitação dos dias.
Das estações,
o outono principia
hora de dizer adeus
à ardência do verão
à exuberância da primavera
porque o tempo
é silêncio
e a solidão rodopia
suavemente
diante dos meus olhos:
espiral cíclico
da sabedoria.
Elizabeth F.de Oliveira
quinta-feira, 3 de maio de 2018
BELONGING
Pertenço
ao céu e à terra.
sou um misto
de amor e ira:
o yin e o yang
do destino
pisando-me
sobre a cabeça e
adornando pegadas
aos meus pés.
Nascida da eternidade
trago o estigma
da dualidade
queimando o corpo
da existência.
Sigo,
pertencendo a
esses mundos,
cuja substância
carrego inalterada
dentro de mim.
Elizabeth F. de Oliveira
sexta-feira, 27 de abril de 2018
MARCO
para Marco Lucchesi
O meu marco
é sinfonia de silêncio
e o outro Marco,
proximidade
e
distância:
uma miríade
de centelhas luminosas
na nebulosa
beleza de Ser.
Os meus marcos
são, na verdade,
um só
fundidos
na eloquência
de um silêncio
que só o abismo
consegue compreender.
Elizabeth F. de Oliveira
quarta-feira, 25 de abril de 2018
LUGAR
Entre o tangível
e o intangível
tu habitas,
na linha mais tênue
da doçura
tão etérea
quanto efêmera
tão sincera
quanto ingênua;
neste onde
que se esconde
no anonimato
da ternura.
Elizabeth F. de Oliveira
quinta-feira, 6 de julho de 2017
BORBOLETA
para Tammires
Do casulo da vida
nasci lagarta,
o ventre do Pai
me acolhendo
no colo da timidez.
Mas vieram os dias de Sol
e o movimento do tempo
me fez olhar para fora.
Inebriada fui
pela beleza do infinito
e ganhei asas no quadril:
a liberdade de ser borboleta
nos palcos do mundo,
sem deixar de ser lagarta,
encolhida
na metamorfose do silêncio.
Elizabeth F. de Oliveira
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
NAU FRÁGIL
Náufraga
de
teus olhos,
esse
oceano
de
clara profundeza
que
me engolfa
em
sublime correnteza
para
o abisso
de
mim.
Nau
frágil
à
luz de teus olhos.
Elizabeth F. de Oliveira
DANÇA
"Ter fé é dançar na beira do abismo"
Nietzsche
Coreografo abismos
numa dança nietzschiana
ensaiada pela fé.
Nada sei,
só ouço a música
que me movimenta
no bailado do tempo
e me entrego,
à beira do precipício,
desafiando
a gravidade da lei,
vendada
pela vertigem da paixão.
Elizabeth F. de Oliveira
OPTCHÁ!
Rodopias, gitana,
tua alegria
traçada em todo chão.
Acampas o destino
sob os pés
em nomadismo de mistérios
e lendas.
Trazes, nas veias,
a força de uma linhagem
e a sina
na palma da mão.
Agitas a saia
com euforia e altivez:
fogueira crepitando
no solo da tua essência.
tua alegria
traçada em todo chão.
Acampas o destino
sob os pés
em nomadismo de mistérios
e lendas.
Trazes, nas veias,
a força de uma linhagem
e a sina
na palma da mão.
Agitas a saia
com euforia e altivez:
fogueira crepitando
no solo da tua essência.
Elizabeth F de Oliveira
segunda-feira, 18 de abril de 2016
DANÇA DO VENTRE
quarta-feira, 6 de abril de 2016
HEBRAICO
Procuro
nesse
alfabeto antigo,
a sombra
de um
antepassado,
um mar
morto em mim.
Mas a
geografia dos meus olhos
é Aravá,
o deserto que fui e ainda sou.
Passos
incertos
peregrinando
a história
do que
busco:
encontrar-me,
sem muro
ou lamentação
do que
fui
e do que me tornei.
Elizabeth F. de Oliveira
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
PROFUSÃO
A profusão do sentir
expande o território
onde a solidão
me desabriga.
O ermo que em mim
avança,
em austera geografia,
contrai
e subtrai
o meu coração.
Elizabeth F. de Oliveira
terça-feira, 17 de novembro de 2015
ESPERAS
Vivo a
nostalgia
do que
não foi
(o
reverso das palavras
celebrando
a ausência),
o pequeno
drama
do
ainda-não.
Coabitam
em mim
esperas
persistentes,
essa
eternidade pressentida
pelos
vestígios
de meus
solitários abismos.
Elizabeth F. de Oliveira
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
SHIME
![]() |
| Solange Costa bailarina internacional e coreógrafa |
para Solange Costa
O
Sol longe encosta
e desliza sinuoso
no
horizonte da palavra,
dança
no ventre do verso,
movimento
sensual:
oriente
místico de poesia.
Tua
presença ensolarada
reverbera
em shime* de luz ,
estremecendo
de significados
o
corpo do poema.
Elizabeth F. de Oliveira
*Shime é um dos principais movimentos da dança do ventre.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
ZHONGWEN 中文
para Hua Zhen
O chinês é um canção
ressoando na cítara do tempo.
Sua entonação,
reverberação de significado:
eco enigmático de
milenar sabedoria
audível num labirinto
de monossílabos e silêncios.
Elizabeth F. de Oliveira
Agradeço imensamente a Hua Zhen pela tradução desse poema para o chinês, com a qual fui agraciada.
中文
是一首歌
在时间的
琴声中
流淌。
她的语调
混合
回响,
那神秘的
声音回响
在迷宫中,
沉寂而沉默。
Eu mesma havia feito a tradução para o inglês para que ela pudesse compreender o poema que havia originalmente escrito em português.
ZHONGWEN 中文
to Hua Zhen
Chinese is a song
resounding upon the zither of time.
Its intonation,
meaning reverberation:
enigmatic echo
of a millenial wisdom
audible in a maze
of monosyllables and silences.
Elizabeth F. de Oliveira
Zhongwen é a transliteração da palavra 'chinês' (idioma) em chinês.
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