sexta-feira, 18 de julho de 2014

MÃOS ALADAS






Mãos não voam,
eu sei.
Porém, quando me deparo
com as tuas,
vislumbro nelas
a intrínseca capacidade de voar.
Não com asas comuns
cobertas de penas,
mas de palavras,
lançando-as na imensidão
do azul-lírico do teu firmamento
e fazendo-as alcançarem
a  infinitude  de  significados
que ecoam nos quatro cantos
do teu uni(verso).
Um voo de rara beleza esse,
que somente tuas mãos realizam
nesse horizonte próprio,
cujo sol é a metáfora mais vívida 
de ti. 






Elizabeth F. de Oliveira



quinta-feira, 3 de julho de 2014

MAESTRO





Rege
tua mão
a poesia
sonoridade da palavra
em movimento
versos reverberando melodia
gesto teu é andamento

largo                    andante
allegro                 presto 

És maestro
regendo o lirismo da vida
no concerto da emoção
sinfonia de palavras conduzida
no silêncio poético da tua mão.







Elizabeth F. de Oliveira

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O LIMIAR DA TUA MÃO





                                            


Tua mão:
inevitável horizonte de palavras
amanhecer incessante de poesia
onde o verso nasce a todo instante
sob a luz inefável da analogia.
Nesse indecifrável firmamento
em que orbita eterno o dia,
é toda  palavra
a aurora de cada momento.
Se em tua mão vingasse o poente,
um zênite de lirismo se instauraria:
crepúsculo de palavras resplandecente.
A aurora anoiteceria
com tua sombra a guiar a tristeza,
dança lúgubre de poesia,
instante de inominável beleza.
Tua mão:
limiar possível de utopia. 






Elizabeth F. de Oliveira


quinta-feira, 12 de junho de 2014

A PALMA DA TUA MÃO






Teus dedos,
rotas de um vale
onde rios de palavras
traçam silenciosa geografia,
território vasto de poesia
acidentado no percurso da emoção.
Palimpsesto dos versos da vida,
a palma da tua mão,
onde o poema principia,
linhas ocultas de inspiração:
traços de enigmática caligrafia,
previamente grafada em teu coração.







Elizabeth F. de Oliveira

sexta-feira, 23 de maio de 2014

HORIZONTE DA MEMÓRIA





Sempre sonho com aquilo
que não se alcança,
traço de utopia
que, no horizonte da memória,
só avança.
Converto a palavra em poesia,
para o enredo de uma não história
anoitecida
no crepúsculo da lembrança.







Elizabeth F. de Oliveira




segunda-feira, 5 de maio de 2014

ABISMO




Esse abismo
que se funde
e me confunde
com promessas
de eternidade,
lições de profundidade
do próprio eu?
E então me lanço
nesse oásis em queda
em vertiginosa miragem
de mim.
E encontro perguntas
enquanto faço respostas
do que sou
ou do que me tornei.
Essa queda em abismo
é meu céu, meu exorcismo,
uma intensa  (des)ventura
de ser.
O que fui
está no fundo,
o que sou
é o meu mundo
em livre despencar,
o que serei
é ascensão:
a inolvidável lição
de como saber voar.







Elizabeth F. de Oliveira

terça-feira, 8 de abril de 2014

PALAVRAS ALADAS







As palavras possuem asas,
eu sei.
E preferem teus dedos
e repousam nos traços
das tuas mãos,
regatos da  inspiração.
Cartografam,
com palavras incertas,
as linhas do teu destino,
da tua emoção.
As palavras só são aladas
em tuas mãos:
território de intensa poesia,
terras descontínuas do teu coração.





Elizabeth F. de Oliveira




sexta-feira, 21 de março de 2014

OUTONO







Finalmente estás curado
da juventude,
quando  tudo é plenitude:
primavera ou verão.
Agora que o outono se anuncia,
a plenitude cede lugar à poesia
ressaltando a beleza da estação.
Teus olhos, tão plenos de clara idade
que já não te pesam as mãos
cujos gestos são palavras,
tua identidade,
contornados na verdade da emoção.






Elizabeth F. de Oliveira



sexta-feira, 7 de março de 2014

TUAS MÃOS (de poeta)






As palavras habitam
teus dedos, tuas mãos:
colo côncavo de poesia
aquecida no silêncio
da emoção.
Quando ganham movimento,
é gesto: rumor de inspiração
um vagar no tempo,
sem futuro, sem outrora
só o agora
eternizando o momento.






Elizabeth F. de Oliveira



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

VIAGEM MÍTICA






Para um lugar distante
segues
peregrino e apóstolo de ti mesmo.
Sem passos
segues
em viagem mítica
na busca de algo
que já te pertence
a reinventar rotas
que só em ti findam.
Segues
mas não deixes de esboçar
em teus olhos meu semblante.
Eu, que trilho aqui
o caminho da espera.






Elizabeth F. de Oliveira


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

SOL






                                                                         para Karoline Goltzman





Eu não sei se teu sol
vem da clave
tatuada no braço,
entoando de alvorada
teus gestos
ou se essa miríade de luz
que, em ti se propaga,
é sol orbitando em tuas retinas.
O fato é que uma estrela
te habita
de  permanente verão,
tornando-te conivente
de cada horizonte ensolarado
e iluminando-me os dias
com a inevitável aurora
do teu sorriso.




Elizabeth F. de Oliveira


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

NÁUFRAGOS







Barcos naufragando
nesse mar
os meus olhos
à deriva
por amar
na intempérie da vida
singrados por vagas perdidas
onde a tempestade concentra
no adejar das pupilas
em que só a noite se sustenta.






Elizabeth F. de Oliveira
Imagem: Pintura de Monet


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

NETUNIANA II






Em dia claro, sou correnteza
na imensidão azul desse oceano,
fluxo transparente
navegando-me sobre a cabeça.
Em noite escura, sou profundeza
mergulho abissal
nesse céu de incertezas.
A profundidade,
meu habitat natural,
realidade de um mundo irreal.
Netuniana em essência,
a emoção é-me experiência
nesse abisso de obscuridade.
A palavra é  minha dinastia
e a poesia,
superfície da claridade.





Elizabeth F. de Oliveira


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

NETUNIANA





Aguilhoada pelo cetro
de uma mitologia,
trago, sob a pele,
o estigma do devaneio.
Livre, galopo no campo
dos sonhos em cavalo
alado de pensamentos.
Embora minha trilha
margeie sequentes abismos,
guiada sou pela linha do horizonte,
ávida de  auroras e poentes,
vislumbrando  o brilho
utópico das estrelas.
Bebo da fonte de Netuno,
mais profunda que o
precipício de existir, porque
é ela que me sacia a sede abissal
da emoção e me liberta
nesse universo de imensidão.




Elizabeth F. de Oliveira

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

CANTO





Minha poesia é meu canto
íntimo
inerme
mudo
um alarido de palavras
sem som,
guiando em silêncio
meus significados de ser.
Os símbolos me entoam
em dança sagrada,
dervixes rodopiantes de emoções.
Tudo me é melódico e eufônico
no ventre das palavras.
Nada sou
além de voz que canta
no papel a música inaudível
de mim mesma,
sonoridade oculta
da palavra que sou.





Elizabeth F. de Oliveira
Tela de C. Toffolo

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

ÁTIMOS



                                                                   para Jamil Damous



Palavras que deslizam
a saudade que te habita,
poesia inaudita
nas entrelinhas do tempo.
O que foi ou não foi,
mas poderia ter sido;
o que não aconteceu
ou o acontecido.
Tudo ganha espaço
no terreno da memória,
latifúndio da tua história
do que foi ou não vivido,
cercanias de um mundo
habitado ou esquecido.
Entre o quarto, o céu e a sala,
o vento, a parede e o corredor
tua poesia percorre solta
catalogando átimos de amor.





Elizabeth F. de Oliveira
Capa do livro 'O Rei do Vento' de Jamil Damous

Poema  inspirado na leitura desse livro.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A NOITE LÁ FORA







Estou com pena 
de deixar a noite lá fora,
nessa madrugada de setembro sem outubro.
Cerrar a porta e abandoná-la
sem despedida, mas com a assinatura
do vento nos cabelos.
Estou com pena 
de deixar a noite lá fora,
Com a lua cheia tangendo
sozinha o céu,
arrebanhando as estrelas,
como se elas já não tivessem
passado pela porteira do infinito.
Estou com pena
de deixar a noite lá fora,
com esse vento
inventando formas,
desdenhando das sombras
que se alternam à sua vontade.
Estou com pena
de deixar a noite lá fora,
assim, ébria de beleza,
desacompanhada de mim.

Estou com pena de quem deixa a noite lá fora.





Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida





terça-feira, 17 de setembro de 2013

LABIRINTO DAS CERTEZAS




Eu me perdi 
no labirinto da verdade.
E aprendi que o caminho
da certeza nem sempre conduz
à porta de saída
e que nem toda verdade
é precisa ou exata;
sempre há um atalho
conduzindo a estranhas 
incertezas.
Quem se perde,
não está de todo perdido,
porque perder-se é também 
encontrar-se ou, quem sabe,
reconciliar-se com o caminho.






Elizabeth F. de Oliveira
Foto: Daniel Oliveira