quinta-feira, 26 de julho de 2018

SUNRISE





                                                   para Isidora Bushkovski




Tua dança coreografa
meus olhos de poesia.
Cada movimento,
um poema adornado
de silêncios:
a poesia do inefável
bailando a ausência
das palavras.
Um corpo celeste 
uma estrela que brilha,
na órbita da leveza,
a dança da eternidade.







Elizabeth F. de Oliveira


terça-feira, 19 de junho de 2018

ALZIRA DE ALÉM-MAR





Cigana
concebida nas entranhas
dos antepassados,
na clareira do tempo
onde chovem de dor
os dias.
Vieste 
para bailar o presente
girando as vicissitudes
de ponta-cabeça.
Na saia,
movimentos de cura
para afogar no oceano
um passado Atlântico
de tristeza e mágoas.
Agora renasces
- sem aviso ou fronteira - 
da ponta do lápis 
à ponta do pés,
para interromper
o círculo vicioso
de lágrimas
que se instaurou
nos olhos dessas mulheres. 







Elizabeth F. de Oliveira





segunda-feira, 21 de maio de 2018

LUCCHESI

Marco Lucchesi



Minha admiração
é reticência,
contemplação - 
marco sublime
diante do qual
me curvo
lacerada
por tamanha beleza.
O mesmo Marco
que  me povoa
as orações
e por quem rogo
ao Universo
que lhe proteja
a existência:
primordial
única
e eterna.
O Marco,
cujos olhos
permeiam
a verdade poética
da solidão,
da distância,
do abismo
e de Deus.





Elizabeth F. de Oliveira






segunda-feira, 14 de maio de 2018

ESPIRAL







Meus sonhos
invernam
na hesitação dos dias.
Das estações,
o outono principia
hora de dizer adeus
à ardência do verão
à exuberância da primavera
porque o tempo
é silêncio
e a solidão rodopia
suavemente
diante dos meus olhos:
espiral cíclico 
da sabedoria. 








Elizabeth F.de Oliveira







quinta-feira, 3 de maio de 2018

BELONGING




Pertenço
ao céu e à terra.
sou um misto
de amor e ira:
o yin e o yang
do destino
pisando-me 
sobre a cabeça e
adornando pegadas
aos meus pés.
Nascida da eternidade
trago o estigma 
da dualidade
queimando o corpo 
da existência.
Sigo,
pertencendo a 
esses mundos,
cuja substância
carrego inalterada
dentro de mim. 









Elizabeth F. de Oliveira





sexta-feira, 27 de abril de 2018

MARCO



                                                                            para Marco Lucchesi



O meu marco
é sinfonia de silêncio
e o outro Marco, 
proximidade
e
distância:
uma miríade
de centelhas luminosas
na nebulosa
beleza de Ser.


Os meus marcos
são, na verdade,
um só
fundidos 
na eloquência
de um silêncio
que só o abismo
consegue  compreender.






Elizabeth F. de Oliveira



quarta-feira, 25 de abril de 2018

LUGAR






Entre o tangível 
e o intangível
tu habitas,
na linha mais tênue
da doçura
tão etérea
quanto efêmera
tão sincera
quanto ingênua;
neste onde
que se esconde
no anonimato
da ternura.






Elizabeth F. de Oliveira





quinta-feira, 6 de julho de 2017

BORBOLETA




                                                                              para Tammires


Do casulo da vida
nasci lagarta,
o ventre do Pai
me acolhendo 
no colo da timidez.
Mas vieram os dias de Sol 
e o movimento do tempo 
me fez olhar para fora.
Inebriada fui
pela beleza do infinito
e ganhei asas no quadril:
a liberdade de ser borboleta
no palcos do mundo,
sem deixar de ser lagarta,
encolhida 
na metamorfose do silêncio.





Elizabeth F. de Oliveira







sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

NAU FRÁGIL






Náufraga
de teus olhos,
esse oceano
de clara profundeza
que me engolfa
em sublime correnteza
para o abisso
de mim.



Nau frágil
à luz de teus olhos.






Elizabeth F. de Oliveira



DANÇA



 "Ter fé é dançar na beira do abismo"
 Nietzsche






Coreografo abismos
numa dança nietzschiana
ensaiada pela fé.
Nada sei,
só ouço a música
que me movimenta
no bailado do tempo
e me entrego,
à beira do precipício,
desafiando
a gravidade da lei,
vendada
pela vertigem da paixão.







Elizabeth F. de Oliveira 





OPTCHÁ!




Rodopias, gitana, 
tua alegria
traçada em todo chão.
Acampas o destino
sob os pés
em nomadismo de mistérios
e lendas.
Trazes, nas veias,
a força de uma linhagem
e a sina
na palma da mão.
Agitas a saia
com euforia e altivez:
fogueira crepitando
no solo da tua essência.



Elizabeth F de Oliveira



segunda-feira, 18 de abril de 2016

DANÇA DO VENTRE


A bailarina Rachel Brice pintada por Ferguson






O corpo em mutação.
A serpente sinuosa
no mistério do infinito:
ondulação.
A leveza do véu
nas asas do  movimento:
levitação.
O sopro da  dança  
no  ventre da alma: 
consagração.


O bailado da ancestralidade
no templo da tradição.






Elizabeth F. de Oliveira


quarta-feira, 6 de abril de 2016

HEBRAICO








Procuro
nesse alfabeto antigo,
a sombra de um
antepassado,
um mar morto em mim.
Mas a geografia dos meus olhos
é  Aravá,
o deserto que fui e ainda sou.
Passos incertos
peregrinando a história
do que busco:
encontrar-me,
sem muro ou lamentação
do que fui
e do que me tornei.








Elizabeth F. de Oliveira




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PROFUSÃO







A profusão do sentir
expande o território
onde  a solidão
me desabriga.
O ermo que em mim
avança,
em austera geografia,
contrai
e subtrai
o meu coração.






Elizabeth F. de Oliveira




terça-feira, 17 de novembro de 2015

ESPERAS







Vivo a nostalgia
do que não foi
(o reverso das palavras
celebrando a ausência),
o pequeno drama
do ainda-não.
Coabitam em mim
esperas persistentes,
essa eternidade pressentida
pelos vestígios
de meus solitários abismos.






Elizabeth F. de Oliveira




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

SHIME

                                         
Solange Costa
bailarina internacional e coreógrafa



                                                                           para Solange Costa                                             


O Sol longe encosta
e  desliza sinuoso
no horizonte da palavra,
dança no ventre do verso,
movimento sensual:
oriente místico de poesia.
Tua presença  ensolarada
reverbera em shime* de luz ,
estremecendo de significados
o corpo do poema.








Elizabeth F. de Oliveira






*Shime é um dos principais movimentos da dança do ventre.





sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ZHONGWEN 中文




                                                               para Hua Zhen





O chinês é um canção
ressoando na cítara do tempo.
Sua entonação,
reverberação de significado:
eco enigmático de
milenar sabedoria
audível  num  labirinto
de monossílabos e silêncios.






Elizabeth F. de Oliveira


Agradeço imensamente a Hua Zhen pela tradução desse poema para o chinês, com a qual fui agraciada. 




中文


时间
琴声
流淌
语调
混合
回响
神秘
声音回响
迷宫
沉寂





Eu mesma havia feito a tradução para o inglês para que ela pudesse compreender o poema que havia originalmente escrito em português.





ZHONGWEN 中文  



                                                                 to Hua Zhen 


Chinese is a song
resounding upon the zither of time.
Its intonation,
meaning reverberation:
enigmatic echo
of a millenial wisdom 

audible in a maze
of monosyllables and silences. 






 Elizabeth F. de Oliveira




Zhongwen é a transliteração da palavra 'chinês' (idioma) em chinês.