segunda-feira, 18 de abril de 2016

DANÇA DO VENTRE


A bailarina Rachel Brice pintada por Ferguson






O corpo em mutação.
A serpente sinuosa
no mistério do infinito:
ondulação.
A leveza do véu
nas asas do  movimento:
levitação.
O sopro da  dança  
no  ventre da alma: 
consagração.


O bailado da ancestralidade
no templo da tradição.






Elizabeth F. de Oliveira


quarta-feira, 6 de abril de 2016

HEBRAICO








Procuro
nesse alfabeto antigo,
a sombra de um
antepassado,
um mar morto em mim.
Mas a geografia dos meus olhos
é  Aravá,
o deserto que fui e ainda sou.
Passos incertos
peregrinando a história
do que busco:
encontrar-me,
sem muro ou lamentação
do que fui
e do que me tornei.








Elizabeth F. de Oliveira




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PROFUSÃO







A profusão do sentir
expande o território
onde  a solidão
me desabriga.
O ermo que em mim
avança,
em austera geografia,
contrai
e subtrai
o meu coração.






Elizabeth F. de Oliveira




terça-feira, 17 de novembro de 2015

ESPERAS







Vivo a nostalgia
do que não foi
(o reverso das palavras
celebrando a ausência),
o pequeno drama
do ainda-não.
Coabitam em mim
esperas persistentes,
essa eternidade pressentida
pelos vestígios
de meus solitários abismos.






Elizabeth F. de Oliveira




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

SHIME

                                         
Solange Costa
bailarina internacional e coreógrafa



                                                                           para Solange Costa                                             


O Sol longe encosta
e  desliza sinuoso
no horizonte da palavra,
dança no ventre do verso,
movimento sensual:
oriente místico de poesia.
Tua presença  ensolarada
reverbera em shime* de luz ,
estremecendo de significados
o corpo do poema.








Elizabeth F. de Oliveira






*Shime é um dos principais movimentos da dança do ventre.





sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ZHONGWEN 中文




                                                               para Hua Zhen





O chinês é um canção
ressoando na cítara do tempo.
Sua entonação,
reverberação de significado:
eco enigmático de
milenar sabedoria
audível  num  labirinto
de monossílabos e silêncios.






Elizabeth F. de Oliveira


Agradeço imensamente a Hua Zhen pela tradução desse poema para o chinês, com a qual fui agraciada. 




中文


时间
琴声
流淌
语调
混合
回响
神秘
声音回响
迷宫
沉寂





Eu mesma havia feito a tradução para o inglês para que ela pudesse compreender o poema que havia originalmente escrito em português.





ZHONGWEN 中文  



                                                                 to Hua Zhen 


Chinese is a song
resounding upon the zither of time.
Its intonation,
meaning reverberation:
enigmatic echo
of a millenial wisdom 

audible in a maze
of monosyllables and silences. 






 Elizabeth F. de Oliveira




Zhongwen é a transliteração da palavra 'chinês' (idioma) em chinês. 








quarta-feira, 10 de junho de 2015

FLUTUAÇÕES







Comungo silêncios,
ausências 
e palavras indizíveis.
Tácita, navego
nas ondulações 
do pensamento:
nem sempre calmaria,
quase sempre tormento.
Divago em vagas,
flutuações
de uma eternidade 
evanescente.










Elizabeth F. de Oliveira






quarta-feira, 27 de maio de 2015

sexta-feira, 15 de maio de 2015

CINZA




As pedras da minha infância
são cinzas
paralelepípedos da memória
lembranças duras de dentro.
As pedras da minha infância
pintaram de cinza
a cor dos dias
fizeram do futuro
um tempo escuro de viver.
As pedras da minha infância
são agora o meu chão
(caminho de revés)
com todo esse cinza
debaixo dos pés.









Elizabeth F. de Oliveira



sexta-feira, 24 de abril de 2015

DESERTOS








Muitos desertos me habitam:
tenho os cabelos
tingidos de ocaso
e a pele tatuada
pelo nomadismo das areias.
A aurora
em mim inexiste
porque o sol sempre sangra
em meu peito.
Regida pela solidão,
sigo
sem rumo,
sem retorno,
com a certeza
de que só o silêncio
me compreende.










Elizabeth F. de Oliveira






terça-feira, 7 de abril de 2015

EUTERPE

Euterpe




Minha musa
toca-me de lirismo
a  medula da emoção.
Tateia-me de poesia
o ventre da imaginação.
Minha musa
gesticula eufonia
ecos da mitologia
da idealização.
Minha musa
tua mão
Euterpe
da minha inspiração. 





Elizabeth F. de Oliveira




Euterpe, a Doadora de Prazeres do grego eu (bom, bem) e τέρπ-εω ('dar' prazer),  foi uma das nove musas da mitologia grega, as filhas de Zeus e Mnemósine, filha de Oceano e TétisEra a musa da Música. No final do período clássico, foi nomeada a musa da poesia lírica e usava uma flauta. Alguns consideram que tenha inventado a aulo ou flauta-dupla, mas a maioria dos mitólogos dão crédito a Mársias.
Fonte: Wikipedia




sexta-feira, 13 de março de 2015

CHEGADA







Retornas,
com a mochila
carregada de horizontes
de um lugar
que é toda parte,
sem fronteira, nem  destino.
Em tua pele
a geografia,
em tua alma
a etnia
dos  anseios
a lavrar na memória
cada chão
que teus pés registram
nas pegadas  
do próprio nomadismo. 






Elizabeth F. de Oliveira




quarta-feira, 4 de março de 2015

DALÍ



Tarô de Dali (Roda da Fortuna)





Surreal
essa linha
que singra de infinito
contornos,
distâncias que guardam
oníricos segredos.
A Roda gira
abismos de ternura
enquanto o Sol flutua
no céu do contentamento.
Os relógios de Dalí
não controlam
as cartas do tempo,
quando o afeto
ganha nome
e a eternidade
resvala em si mesma.







Elizabeth F. de Oliveira



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

TUAREGUE






Saara   sou
e tu,  tuaregue
do meu destino.
Persegues tua busca
fincando sobre mim
pegadas fustigadas
pelo nomadismo de tua linhagem.
E segues, com o olhar
perdido no horizonte
da alma,
sem suspeitar
que esse sol que nos une,
também nos condena.
O vento sussurra rotas
em teu ouvido
para que de mim jamais
te percas,
pois em minha solidão
te  abrigas
das intempéries da tua existência.






Elizabeth F. de Oliveira