Encontrei a poesia, de forma inesperada, é que ela estava
disfarçada de música, teatro e magia. Com o rosto pintado de emoção, as
palavras ganharam movimento, gesto, mímica e entonação, bailando livres
aos acordes do vento como notas de alguma canção. E quem vai
assistir, não tem a menor ideia, de que, mesmo sendo plateia, também
vai conduzir, de forma bem marcada, as batidas do seu coração; poesia
ajustada em uníssona percussão, entoando uma improvisada melodia pra
esse teatro de emoção, tão mágico e de pura fantasia. Elizabeth F. de Oliveira Foto O Teatro Mágico
Somos compatíveis na sinastria da solidão, carregamos no peito o mesmo crepúsculo circunscrito de silêncio e desilusão. E, na contradança do destino, as sincronicidades se transformam em desatino, fazendo do desencanto nosso melhor ponto de convergência, de eloquência da harmonia; para que, quem sabe, juntos e com paciência, possamos, do peito, desocultar a alvorada e fazer dessa vida inabitada um encontro inesperado de poesia.
Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
Fulgura em teus olhos uma luz sufocada, ânsia prévia de ser mar, antes de ser enseada; testemunha ocular dessa saudade represada na solidão do teu olhar. Elizabeth F. de Oliveira Pintura de Monet
Tuas palavras tingem de poesia os meus olhos espelhados de arredios barcos na solidão dos oceanos. Elizabeth F. de Oliveira Foto: Álvaro Manuel Mendes Cordeiro
ínvio
caminho, margeado pela
veemente eloquência do
silêncio.
Elizabeth F. de Oliveira
Foto: autoria desconhecida
sexta-feira, 22 de março de 2013
para Elizabeth F. de Oliveira As tuas ancas são uma pequena embarcação pronta a seguir viagem. Não esperes que o vento favorável manobre o teu veleiro. As vagas atravessam-te os ossos. E, noite dentro, a estrela polar brilha na proa azul dos teus olhos. Graça Pires www.ortografiadoolhar.blogspot.com Pintura de Salvador Dali
Este poema foi um presente de aniversário da minha mais do que querida amiga Graça Pires, renomada poeta portuguesa, cujos versos me enchem de perplexidade. Graça, minha querida, o meu apreço, o meu afeto e a minha admiração! Agradeço esse presente inédito e eterno.
Somos sol e lua perdidos de solidão num céu inseguro cingido de ocasos. Somos lua e sol suspensos na imensidão em lados opostos, no escuro dessa análoga saudade. Somos noite e dia no reverso da mesma agonia, esperando o céu se firmar ansiando um eclipse de poesia para sermos enfim um par.
O que resplandece em ti são os teus olhos, lume secreto de noites tardias, negrume perpétuo das madrugadas a concorrer com o brilho da alvorada recém-colhida na plenitude do teu sorriso. Elizabeth F. de Oliveira Foto: Dev Carvin 'Aurora Borealis' .
em forma de lembranças; como
quem tem asas, asas
que voam em direção oposta, deixando, no tempo, um rastro indelével de saudade. Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
Quando teus olhos ficam marejados, vejo luzes submersas. E constato o quanto a natureza é sábia: estrelas podem cair no oceano, sem sequer terem morado no céu. Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
Nem pareces o mesmo, Deus menino Exposto Num presépio de gesso! E nunca foi tão santa no teu rosto Esta paz que me dás e não mereço.
É fingida também a neve Que te gela a nudez. Mas gosto dela assim, A ser tão branca em mim Pela primeira vez. Miguel Torga Foto: autoria desconhecida Desejo a todos um Natal muito feliz. Um 2013 de muita poesia!
tem saudade;
dos transeuntes amenos que pontuam seus passos
de incógnito paradeiro; do peso da solidão
sob a sola dos sapatos dos que se perdem em tão curto trajeto;
da estreanheza do lugar
dos que se encontram perdidos na intimidade de seus sonhos. Toda rua tem memória,
tem saudade;
de um tempo em que seu nome era só promessa escrita
em algum papel
quando um bosque cobria de verde
esse asfalto,
que segrega casas lado a lado. Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
á clausura de incontáveis ausências, ladeada
por uma solidão de distâncias. Reclusa
e nomeada de
premonitório isolamento, abstraio-me
de olhares incertos,
entoando
o chamamento
silente
dos reflexos
retidos
na memória de algum tempo. Circunscrita
de labirintos
excessivos
de saudade,
recobro,
na
eufonia de cada instante,
o murmúrio inaudível de olhares
perdidos
na inevitabilidade do tempo. Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
um
sonho antigo, nasceste
primeiro em
pensamento, embalando
deafeto o
colo do destino de
uma mãe-menina. A
vida então te deu à luz, para
perpetuar a esperança nos
olhos de cada amanhã, renascendo
eternamente nas
retinas dos teus antepassados. Elizabeth F. de Oliveira Foto: autoria desconhecida
tocarem
então as minhas, voluntariamente
presas às
algemas do desejo, instaurar-se-á
o silêncio no
equilíbrio desse instante, extinguindo
reincidentes saudades. Não
importa o quão estejam as
mãos sulcadas pelo tempo, o coração sempre faza idade parecer
menina. E
nesse dia inaugural da realização dos
meus sonhos, será
alvorada no horizonte do
meu peito, com
a vida finalmente amanhecendo. Elizabeth F. de Oliveira Foto Francini Saldanha
de
desvendar reflexos,
mas
sei que meu olhar
foi
concebido de promessas
do
teu,
reverberando
um aquiescente
silêncio
de esperas.
O
luzidio reflexo dos nossos olhos,
cifrados
de poesia e desejo,
criou
entre nós um sortilégio-encanto,
tornando-nos
incapazes
de
quebrar a superstição sagrada
desse
silêncio.
Peregrino, incansavelmente, um caminho tingido por uma saudade, na rota ao sul da solidão mais errante. Um caminho circunscrito por solitários campos, arados indelevelmente pela enigmática perfeição do silêncio.
Música e poesia deram-se as mãos, num gesto cúmplice de afeto. E, de autenticidade, pintaram-se os rostos, para que, somente pelos olhos e pela boca, fulgurasse a magia de um teatro impregnado de sons e palavras, ideias e ideais, partilhando um pão carinhosamente levedado por acordes e versos; flagrante fascínio de uma plateia cativa de sonhos.
Envelhecemos com uma vara de medir o sol na linha do olhar. Não entendemos os sinais inscritos nas margens do abismo. Nem os bosques onde se abrigam as sombras e a chuva. Nem a misteriosa relação dos astros no lado mais silencioso dos céus. Um surdo alvoroço ecoa, fúnebre, na paisagem quando, para além das montanhas, o piar dos pássaros é tão nítido como o sopro do medo que transtorna a leve inclinação das planícies.
Graça Pires Uma Vara de Medir o Sol
É com grande prazer que recomendo o livro UMA VARA DE MEDIR O SOL, pela Editora Itermeios, da consagrada poeta portuguesa Graça Pires. Como é seu primeiro lançamento no Brasil, é uma oportunidade única de conhecer um pouco do trabalho dessa grande poeta. E tenho certeza de que, quem fizer a aquisição, terá em suas mãos não somente um livro de poesia, mas um rosário inteiro de emoções desfiadas sob uma luz intensa de metáforas capazes de nos deixar perplexos, tamanha a intimidade que a autora com elas mantém. Ao clicar no título dessa postagem, você será redirecionado ao site da editora para a adquisição do livro. Boa leitura!
UMA VARA DE MEDIR O SOL de Graça Pires
O imaginário poético de” Uma vara de medir o sol” elabora-se a partir de silêncios e memórias. Aqui se procura, no pleno dizer dos sentidos, a geografia das coisas amadas e sofridas. Aqui se revela a inquietude de quem vê com perplexidade e assombro o nosso mundo, quando reparamos nele com o olhar de uma descoberta mais lúcida. Aqui se teme que a persistente proximidade do abismo aumente o nosso desamparo e os nossos medos, habitantes que somos do mesmo espaço onde que se acoitam pressentimentos e angústias primordiais. Aqui se tenta ficar mais perto de um território filtrado pela luz de pretéritos crepúsculos e de límpidas manhãs futuras.
Percorro as palavras num ritual antigo, ancestral das minhas emoções, para nomear o teu lendário regresso. Porque são as palavras o invólucro perfeito do desejo, a redoma mantenedora de todos os significados. E neste universo de infinitas etimologias, preservo intacta a semântica da tua imagem, já mítica, no esboço da minha memória.
Quando meus olhos se amalgamam aos teus, num gesto uníssono de cumplicidade, teu rosto desmorona, vertiginosamente, na emoção de um sorriso, tornando audível o âmago de um silêncio somente habitado na euforia do desejo, comum à reciprocidade inata dos amantes.
Perpetuo, nos olhos, a solidão de todos os labirintos. Porque a solidão por si só não basta, é preciso também estar condenada a um caminho sem volta, isento de possíveis regressos; um caminho circunscrito pela eternidade de um agora que jamais será pretérito, jamais será memória.
Elizabeth F. de Oliveira Foto: Mychelle de Andrade Pavão
Leio o teu nome na página da noite: Menino Deus... E fico a meditar no milagre dobrado de ser Deus e menino. Em Deus não acredito. Mas de ti como posso duvidar? Todos os dias nascem meninos pobres em currais de gado, crianças que são ânsias alargadas de horizontes pequenos. Humanas alvoradas... a divindade é o menos.
A luz se apagou em meus olhos. O que neles reside é uma opaca lembrança entornada de mágoas. Já não há nascente, o que me resta é o crepúsculo de uma desavisada sombra de saudade.
O tempo enevoou meus olhos com um halo de encantatórias promessas. Embriagada pela miragem do teu regresso, fui abruptamente surpreendida pela ofuscante nitidez da verdade, intuição involuntária da clarividência dos meus enganos.
Elizabeth F de Oliveira Foto 'Clarividência' de Ana Martins
A inerme ingenuidade das manhãs
esconde o rito latente dos cotidianos;
ameniza,
com um tênue traço de candura,
a pressa frenética com que se
deflagra a vida.
Anônimos, permaneceremos,
com uma velada promessa
nos olhos de um azul eterno,
sob um céu nítido de esperanças.
Entre mim e ti há um caminho pontilhado de reticências, há um desassossego nos parênteses da espera. Não sei se pontuo de interrogação o muro de equívocos que nos separa ou se aguardo pacientemente, nas entrelinhas da saudade, a etimologia do teu regresso; pois é aqui nesse exílio, que, por ti, sempre realizo a extradição poética das minhas palavras.